A última entrevista de Rilke
Para Angela, minha amiga, nova mentora e grande companheira de conversas.
Suíça, 1924 – Um senhor mais baixo que eu me recebe com um sorriso que se divide entre melancólico e abrasivo. A sala em que este escritor me recebe é aconchegante, as paredes são altas e as janelas, enormes. Logo enxergo a mesa onde – a julgar pelo acúmulo de papéis jogados, a pena e o nanquim – o escritor se dedica aos últimos anos de seu ofício: viver.

As cartas de Rilke correram o mundo, não só por sua valiosa sinceridade em supostamente fornecer instruções fáceis para quem as lê, mas também por revelar a personalidade extremamente afável, ainda que complexa, de um dos poetas modernos do início do século XX. Na tarde que passei em sua casa, o senhor de olhar impreciso e distante falou sério sobre sua vida, sobre o amor, sobre escrever e sobre a inominável sensação inerente à todas as coisas. Jamais foi professoral em seus comentários, tampouco pedante. De fato, qualquer conselho dele mais soa como honesta divagação: algo de se esperar quando se lê – e, no meu caso, se ouve – Rilke.
A entrevista durou cerca de uma hora e meia. Mais silencioso do que se poderia imaginar, Rilke não hesitou em ser abrangente e poético em suas respostas. Durante a conversa, sempre tentou esconder, desajeitadamente, um curativo que envolvia sua mão. Disse, previamente, que andava a colher rosas num jardim dos fundos de sua casa. Como vim a descobrir, não fora o primeiro nem o último ferimento por culpa das rosas.
Apesar do olhar triste, cada frase sua era enviesada por um sorriso. Escritor solitário, foi menos assustador do que a previsão. Apesar de, nas “Cartas a um jovem poeta”, problematizar a criação literária como uma das mais complexas obras de arte, René Rilke – como era conhecido na universidade – foi acessível e simplório, se dispondo a responder as minhas perguntas e as perguntas de Vinicius Werneck, que sugeriu a entrevista.
A ENTREVISTA
Na Academia Militar de Wiener-Neustadt, René Rilke não passava de um garoto pálido, esguio, um perdedor nos esportes, e com o sonho confesso de ser poeta. Seu sonho foi posto em dúvida por professores, mas Rilke suportava com paciência a rigidez de disciplina da Academia. Na geração seguinte a Rilke, um professor chamado Horacek encontrou um jovem lendo um livro de poesias sob uma árvore. Ao confrontar o jovem – Franz Kappus – e tirar o livro das mãos dele, o professor não conseguiu esconder a surpresa: “Então o jovem René Rilke se tornou mesmo poeta?”. Foi a motivação que Kappus, um principiante na arte da escrita, precisava para submeter os próprios poemas ao julgamento de Rilke. Provavelmente, o jovem Kappus não tinha ideia da série de respostas que receberia, nem da importância delas. Se Rilke sabia? Esse foi o pontapé inicial da entrevista.
Pelvini - “Cartas a um jovem poeta” me foi apresentado por uma professora que nunca me deu aulas, uma amiga de visões parecidas com as minhas. Ela disse, na época: “Rilke vai se tornar seu livro de cabeceira”, e tinha razão. Sobre os conselhos que lá escreveu, direcionados à Franz Kappus, o senhor achou que seriam válidos a outros escritores e leitores quando os escreveu?
Rilke – Primariamente, devo dizer qual prazer é saber que minhas palavras ultrapassaram os limites do meu presente. É um poder de longevidade que somente a palavra escrita poderia alcançar, e sou muito grato por essa inimaginável força. Infelizmente não posso representá-las pelo tempo que quero, apenas pelo tempo que me resta. No entanto, a palavra sincera sobrevive a mim e a você, e cedo ou tarde toca o coração de alguém – e essa foi minha única intenção quando escrevi para o jovem Franz. Com as cartas, meu coração estava com ele. O fato de você estar aqui comigo prova que meu coração esteve com mais alguém. (risos) Eu fico infinitamente feliz de saber que serei lembrado pelo que escrevi. Quando escrevi para meu caro Kappus, porque ele assim requisitou, pensei: “Quem sou para aconselhar um escritor para que faça aquilo ou isso?”. Ora, o que escrevo não passa de reflexão de mim… Se servir para mais alguém, devo apenas ser grato. Muito grato.
Pelvini – Gosto do discurso perseverante nas “Cartas a um jovem poeta”. No entanto, o senhor se recusa a criticar qualquer soneto que Kappus lhe enviar…
Rilke - Devo ter soado pouco encorajador à época.
(risos nervosos da minha parte)

Pelvini – Há um escritor português muito famoso na minha época, chamado José Saramago. Ele disse que “somos todos escritores, só que alguns escrevem e outros não”.
Rilke – Somos todos escritores. Os que não escrevem, porém, não o fazem por algum motivo. Como qualquer obra de arte, o que se escreve nasce de uma necessidade. Quanto mais sincera essa necessidade, mais belo será o resultado. E quando não há essa necessidade? Ora, então não há a boa obra de arte. Quem não escreve pode encontrar outra forma de se expressar. De todas, escrever é a forma mais difícil de expressão, porque exige coragem de enfrentar uma necessidade que é suprida apenas com a solidão.
Pelvini – Há vantagem na solidão?
Rilke – A solidão é amarga. Mas ela deve ser carregada com a queixosa harmonia humana. Porém, as respostas que queremos estão guardadas conosco, e o único acesso e único buscador somos nós. A jornada rumo à essência é feita solitariamente. Não há outra saída.
Pelvini – Um pouco assustador. Mas percebo um certo orgulho, quando o senhor fala de solidão. É possível viver o amor quando se está sozinho? Melhor: existe o amor?
Rilke – (Rilke olha pra mesa onde exerce seu ofício, enquanto acaricia a mão com o curativo. Suspira, reflete. Quando continua a falar, parece estar conversando diante para um espelho) Retomei, há pouco tempo, uma série de poesias que devo intitular “Elegias de Duíno”. Comecei-as dez anos atrás, imagine. Provavelmente serei julgado como um que enxerga no amor a infelicidade. Não: apenas o vejo como inalcançável. Felizmente, é possível acreditar naquilo que a gente nunca viu ou sentiu ou tocou. Logo, acredito que o amor existe, e que é possível senti-lo mesmo na pior das solidões.
Pelvini – E o escritor iniciante? A que deve amar quando escreve?
Rilke – Deve amar as coisas pequenas, amar o insignificante. O escritor, ou ainda, o homem que o fizer escreverá para sempre: o que ninguém vê pode se tornar grande, inexplicavelmente grande. Ao se amar o que é insignificante, tudo se torna mais fácil, pois se ganha a confiança do que é pequeno, do que é pouco. É reconciliador, talvez não para o intelecto e sim para consciência.
Pelvini – E, além de amar a solidão…
Rilke - …deve evitar escrever poesias sobre o amor. Pelo menos de início.
Pelvini – Por quê?
Rilke - Devem-se evitar as formas demasiado comuns de estilo, pois precisa-se de uma força grande e amadurecida para produzir algo de pessoal em um domínio que sobram tradições boas, brilhantes. Mas não é que nunca poderá fazê-lo. Apenas acho que um bom início vem sobre escrever do âmago das coisas, do por que se perde, por que se ganha, por que se escreve. Após viver essas perguntas, o escritor está preparado para falar de outras coisas, como o amor.
Pelvini – Enquanto o senhor não tinha esse amadurecimento, onde buscava inspiração para o ofício?
Rilke – Na ternura da natureza, que é infindável, nos meus artistas favoritos, como o escultor Auguste Rodin, que já não se encontra mais conosco e sobretudo em Jens Peter Jacobsen. Eu me lembro a primeira vez que li Niels Lyhne, obra máxima deste poeta, uma obra episódica de máxima beleza. Sim, os livros têm muito a oferecer no amadurecimento. Como eu bem dissera a Franz Kappus, deve-se devotar amor aos livros, porque este amor será retribuído mil vezes.

Pelvini – Como o senhor descreveria uma tarde de sol?
Rilke – Já conheci muitos lugares na Europa, como um nômade. Tenho a vaga sensação que a Suíça é o último lugar que conhecerei, minha última moradia. Porém, cresci em Praga, estudei também em Munique e Berlim, morei na Rússia, em Paris, na Itália (inclusive foi ali, em um castelo chamado Duíno, onde iniciei minhas Elegias), na Suécia… Talvez seja minha velhice, mas tenho a impressão de já ter visto mais tardes de sol que qualquer outro. No entanto, nenhuma tarde de sol fora igual em qualquer lugar que me lembre. Descreveria uma tarde de sol como aquela que ainda não vi, a última que veria em vida. Estará o céu cheio de nuvens? Refletirá meu estado de espírito? O sol vai entrar pela janela e atingirá minha cama? Ainda: estarei na cama, de lá podendo assistir uma tarde de sol? (um silêncio longo toma a sala. Tento começar a última pergunta, mas Rilke estende a mão, pedindo-me para esperar.) Certa vez viajei para Bremen, acreditando que o silêncio e a vastidão do céu de lá fossem me curar das indisposições e cansaços dos dias anteriores. Agora estamos aqui, e você me pede para descrever uma tarde de sol apenas, e me sinto tentado em descrever a última que vou lembrar. Seja como for, que a última tarde de sol tenha o mesmo poder que as tardes de Bremen. Assim, fecharei os olhos com menos ansiedade.
Pelvini – O que diria aos novos escritores na minha época?
Rilke – Que encontrem a resposta para a seguinte pergunta: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Ou, ainda, “sou mesmo forçado a escrever?”. Se a resposta for afirmativa, se a resposta for “Sou”, que construam suas vidas de acordo com essa necessidade. Que suas vidas tornem-se, nos bons e maus momentos, um testemunho e uma reflexão dessa pressão. Qual a sua resposta, Pelvini?
RAFAEL PELVINI

Enviei a sugestão de texto, que se encontra logo no início, e após ver o resultado só posso agradecer.
Se você está entre os admiram quanta coisa não se pode criar quando se juntam menos de 3 dezenas de letras - símbolos vazios quando solitários -, não perca esse link: pelvini.com !
A força da palavra: a última entrevista de Rilke
domingo, 5 de julho de 2009
"Para escrever basta viver, e viver com paciência - não é o tipo de ofício que sucede de um dia para outro."
Descobri um amigo no Pelvini rapidamente. O escritor competente também não demorou a aparecer. Não é exagero meu, como vocês podem conferir nessa postagem especial.
Qual motivo de o texto estar aqui? Qualidade não é um bom argumento, visto que esse é o único texto que não é de minha autoria, e convenhamos que não é o único de alto nível.
O motivo é muito simples. Pelvini pede aos leitores de seu blog que o desafiem. Dito e feito. Pedi uma entrevista com seu autor mais caro, pedi que ele fosse o repórter e ao mesmo tempo o imaginado autor. Sendo o texto do meu amigo Pelvini, só poderia vir algo de excelente qualidade.
Bom apetite!
CONSIDERAÇÕES
Naquele longínquo ano de 1924, Rainer Maria Rilke publicou as Elegias de Duíno. Dois anos depois, Rilke feriu a mão outra vez enquanto colhia rosas. Seu último ferimento agravou lentamente a leucemia que sofria, levando-o à morte. Quanto à entrevista, acredita-se que essa tenha sido sua última: a única que ele nem soube que deu. Sua obra, no entanto, continua viva. É o poder da palavra, transcendental e eterno. Como ele mesmo previra e me avisara.
Rafael Pelvini
05 de Junho de 2009
São Paulo, Brasil